quinta-feira, 6 de outubro de 2011

¬minha boneca









ela ficou sozinha, cercada de solidão e silêncio. jogada em meio aos destroços no fundo de um armário... como se chorasse, como se sofresse, coitadinha, como se soubesse que um dia as bonecas da vida também ficam jogadas num armário qualquer depois que o brinquedo termina.

terça-feira, 4 de outubro de 2011








do outro lado da margem, ou da ponte, uma consoante observa um papel de escrita colorida e letras miúdas, onde soadas carícias encantam a poesia intelectual de fundo enigmático. arte condensada em partituras indecifráveis sobre um chão de transparência melancólica, mas envolvente o bastante para encurtar a distância que existe entre linhas e entrelinhas paralelas e comunicar-se na linguagem do coração com a leitura desejada. desvelada a esfinge, escrita e leitura complementam-se e colhem estrelas no jardim do céu. a consoante, desperta da paisagem, agora sabe que é da alma o sabor a beijo. não da boca.

domingo, 2 de outubro de 2011

¬todo escritor precisa da plateia. mas nem toda plateia merece o escritor que tem.























sem hipóteses. não há vida em doses fracionadas. não existe alívio em bulas de remédios, nem em consultas telefônicas. há vezes que cuspir ou engolir não é uma opção. é uma questão de administração, sem negar o efeito deletério. o sofrimento não consiste no gosto amargo do medicamento, nem na injeção na veia. a proporcionalidade terapêutica, parte da assistência paliativa que não tem função curativa, está no choque entre a realidade e a mesma realidade. no pinga soro suado que escorre atrás da máscara branca que sufoca, mas que também evita a contaminação cruzada. no nível da compressão aplicado até atingir o limite máximo da aflição suportada. sempre a mais. não é do verbo a dor. é do efeito adverso que é maior que a própria dor.

sábado, 1 de outubro de 2011

¬promessas de outubro








vou dormir ponto final para acordar vírgula, trabalhar pronomes e fórmulas para distinguir os sinais. vou esquecer o tempo das pontuações reticentes e juntar os pontinhos. alternando vogais e consoantes, vou desenhar um caminho de palavras até resgatar o verbo do infinitivo. vou colar minhas digitais nas suas mãos prometidas e vou beijar-lhe a face como quem beija o grande amor de sua vida.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011








não estragar a foto, não perder o foco, não tapar o rosto, não rasgar o verbo, não cobrar o imposto, não roubar a crase, não ficar no quase, não lavar as mãos, não subestimar os nãos, não quebrar o broto, não queimar o dedo, não morder os lábios, não fechar os olhos, não trocar os advérbios, não reembolsar o cabeçalho, não separar as reticências... e não desprezar as adjacências.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

¬luto









beijei todas as letras e pedi ao vento que me trouxesse de volta as folhas perfumadas cheirando a verbos frescos, pedi. mas ele trouxe a ventania e a tempestade. apagou a luz, separou os ossos da pele e deixou rastros de sangue, varrendo para longe de mim a vontade sorrir. não há varinha mágica, nem fada madrinha, no mundo dos grafites vence quem tem mais cor. se antes experimentei a autoridade do calar a voz e pensei que sabia tudo, hoje sei que pior, muito pior, é perder o direito de escrever.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011









mais uma semana passou. semana passada que correu. semana que não deu. talvez alguma semana dessas. talvez semana próxima. outra semana chega. e semana chegando... semana serena sorrindo.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

terça-feira, 13 de setembro de 2011









à sombra. porque há momentos que atravessar a margem, ou a ponte, ou ser linha, caminho ou via, passagem ou viaduto é realmente inútil. e desnecessário. melhor se contentar em ser paisagem e ser enquadrado numa moldura qualquer. quem nasceu para ser quadro nunca passará da parede. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2011









por mais conhecido que seja o caminho, o olhar na paisagem é sempre novo para surpresas que não me surpreendem, mas sempre estão me levando a caminhos que nunca olhei... onde o céu é sempre céu e a lua, sempre lua... e todos os caminhos são de entradas e saídas a sorrisos.

domingo, 11 de setembro de 2011

¬não é fácil, mas é simples!









é preciso reconhecer que perdi. a carteira ou a pulseira. a crase ou a frase. posso adivinhar a busca, mas não posso acertar no encontro. ou, no achado. é preciso admitir mais que erros ou falta de acertos. se há imagens que não traduzem o sentimento, calar não convence o que não tem convencimento. é preciso conjugar o verbo, ainda que em forma de denúncia ou confissão, e deixar que os dedos sejam os mensageiros do coração. é preciso reconhecer que enquanto subia e descia linhas e entrelinhas, imprimindo no caminho pétalas e perfumes, o cursor apontava ao escárnio das palavras que me chegam em notas de rodapé. paráfrases que nem a mais inepta das criaturas poderia ignorar. ou, fugir à realidade. de virtual, basta o meio. estou inteira à sobriedade. quem espera encontrar o diferente errou de porta. ou, de janela. o melhor desse mundo é a opção que temos de virar as costas, ou a página, sem lamentar a sorte, ou o azar. por gosto ou preferência. a mesma janela que pode ser aberta diariamente, também pode ser fechada definitivamente. responsabilizar o céu, ou a lua, ou a falta de iluminação suficiente à obviedade dos fatos é que não. o verbo, longe da perfeição, por pior que seja, ou mais imperfeito, sem graça e sem jeito, é o meu verbo. e o conjugo na mais perfeita sinceridade, sem mendicância de reciprocidade. reconhecer a perda não me faz cessar a busca, mas me ajuda a superar os danos e a me prevenir contra eventuais objetos de riscos. ou, sarcasmos. não devolvo a sílaba, nem os orgasmos. sem demora, é hora de hibernar, não sem antes lembrar que sou aquela quem muito viveu por tão pouco que se desejou e tão feliz que foi por muito que amou. e saio de mãos dadas com o que há de melhor em mim: minhas próprias razões.

domingo, 4 de setembro de 2011

¬mesmo no silêncio dos verbos o coração é arrítmico...
















aqui, neste pequeno grande caderno, coleciono verbos e imagens, tintas e gestos. abri aspas, fechei aspas, pontuei, virgulei, fui recordista de traços incertos e assumi todos os riscos. desprezei linhas e regras, perdi, ganhei, nasci, morri e renasci uma infinidade de vezes. escrevi pautas e rasguei bilhetes, soprei sorrisos e pinguei soro. fui vogal e consoante numa mesma folha de papel. sujeito simples, composto e indeterminado, concordante e discordante de um único verbo de reconciliação. contei dias e contei objetos. conheci letras e juntei palavras perfumadas à sinceridade dos melhores aromas sem perder a essência de minha fórmula principal. não aprendi a voar, não aprendi a sonhar, mas aprendi a fazer do pouso meu melhor repouso. sobretudo, aprendi a conjugar o verbo amar antes de dizer adeus.