quarta-feira, 24 de novembro de 2010

sábado, 20 de novembro de 2010

¬Poema

Se morro
o universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
se apago a lâmpada:
os sapatos - da - ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó -
dos - andes,
bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
morrem comigo.

Ou não:
o sol voltará a marcar
este mesmo ponto do assoalho
onde esteve meu pé;
deste quarto
ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
uma nova cidade
surgirá de dentro desta
como a árvore da árvore.

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

¬Michelangelo Buonarroti








"Como faço uma escultura? Simplesmente retiro do bloco de mármore tudo que não é necessário."

¬Lord Keynes







"Não é função do governo fazer um pouco pior ou um pouco melhor o que os outros podem fazer, e sim fazer o que ninguém pode fazer."

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

¬silencio








[Alberto Mesferrer]

Silencio es recordar que toda palabra tiene un hoy y un mañana; es decir; un valor de momento y un alcance futuro incalculable.

Silencio es reconocer que los conflictos se resuelven mejor callando que hablando, y que el tiempo influye más en ellos que las palabras.

Silencio es no quejarse, para no aumentar las penas de los otros.

Silencio es decir HICE, en vez de HARÉ.

Silencio es la raíz y por eso sostiene.

Silencio es la savia, y por eso alimenta.

Silencio es el capullo donde la oruga se cambia en mariposa y silencio es la nube donde se forma el rayo.

Silencio es concretarse, seguir la propia órbita, hacer la propia obra, cumplir el propio designio.

Silencio es meditar, medir, pesar, aquilatar y acrisolar.

Silencio es la palabra justa, la intención recta, la promesa clara, el entusiasmo refrenado, la devoción que sabe a donde va.

Silencio es hablar uno calladamente con su propio dolor, y contenerlo hasta que se convierta en sonrisa, en plegaria, o en canto.

Silencio es, en fin, el reposo del sueño y el reposo de la muerte, donde todo se purifica y restaura, donde todo se iguala y perdona.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

¬Direitos Imprescritíveis do Leitor








  1. O direito de não ler.
  2. O direito de pular páginas.
  3. O direito de não terminar um livro.
  4. O direito de reler.
  5. O direito de ler qualquer coisa.
  6. O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível).
  7. O direito de ler em qualquer lugar.
  8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali.
  9. O direito de ler em voz alta.
  10. O direito de calar.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

¬








meu olhar torto... mas bem que te vi e bem que te senti no bem-te-vi que me vendo fez pose e sorriu para mim... e só depois, bem depois, bateu asas e voou.

¬1976







quarta-feira, 20 de outubro de 2010

"Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam vôo como de um alçapão.

Eles não têm pouso nem porto.

Alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

Na maravilha do espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti..."

Mario Quintana







um desafio. íntimo. pode ser o pior. é mesmo péssimo. mas é meu. por quanto tempo, não sei. até onde, também não sei. já segui tantas vezes sem garantia de ida ou de volta... e sempre voltei. no mais, no menos, é só um espaço, físico. outros valores, outras palavras e minhas convicções. essas, em linha reta, sem curva, sem ponto-pergunta. apresentem-me a fatura, o pagamento continua sendo à vista.

sábado, 16 de outubro de 2010







[imagem presente]

"Que minha solidão me sirva de companhia.
Que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo."


Clarice Lispector

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

¬Cah Morandi








"é como ter um mar inteiro para beber com os olhos."

sábado, 2 de outubro de 2010

"Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta."

terça-feira, 28 de setembro de 2010

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. [...] Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero o meu avesso. [...] Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. [...] Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice. Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto, e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo, loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que 'normalidade' é uma ilusão imbecil e estéril."
Oscar Wilde

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

¬substituir-te pelo vento

Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?


Preciso habituar-me
a substituir-te pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.


Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.


Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.


Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.


Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.


E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho
[das páginas de Paula]

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

¬parabéns, Paula!








'só o silêncio do teu abraço'

terça-feira, 21 de setembro de 2010








café com leite, cravo e canela... alguns sabores são inconfundíveis, incomparáveis e essenciais... tim-tim!

domingo, 19 de setembro de 2010

¬Kalunga

"O mar é Kalunga
A morte é Kalunga
A fatalidade é Kalunga,
O trabalho escravo é Kalunga"

Antonio Agostinho Neto

¬A net estupili... estupidificou-nos

Para não fugir à regra... link'[e]mos'

Luiz Pedro Nunes

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

¬meu silêncio é sua companhia

compaixão. não a compaixão de dó, de piedade, mas aquela compaixão que significa sentir junto, sentar ao lado e viver as dores com o mesmo entusiasmo em que vivemos todas as alegrias, porque na solidão dos dias, da vida, à sombra de perdas e de tristezas, mesmo sem dizer coisa alguma, ainda existem amigos capaz de compreender tudo em silêncio.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

¬Clarice Lispector









"E era bom. 'Não entender' era tão vasto que ultrapassava qualquer entender – entender era sempre limitado. Mas não entender não tinha fronteiras e levara ao infinito, ao Deus. Não era um não-entender como um simples de espírito. O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma benção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez."

terça-feira, 7 de setembro de 2010







[imagem A.L.]







[e discos voadores a distribuir senhas]

domingo, 5 de setembro de 2010

sábado, 4 de setembro de 2010

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

¬ Mario Quintana







.
"Essas coisas que parece não terem beleza nenhuma é simplesmente porque não houve nunca quem lhes desse ao menos um segundo olhar!"

terça-feira, 31 de agosto de 2010

domingo, 29 de agosto de 2010

domingo, 15 de agosto de 2010

¬Charles Millhuff









"Muitas das circunstâncias da vida são criadas por três escolhas básicas: 
as disciplinas que você decide manter, as pessoas com quem você decide estar e as leis que você decide obedecer."

domingo, 8 de agosto de 2010








no alfabeto dolo, a cruz é premissa da culpa que não acorda sonhos, porque nenhuma verdade satisfaz. conceitos existem. preconceitos também. não há verbo que convença a razão que alimenta dúvidas. o cansaço não encurta distância e não faz crescer asas. a tábua de salvação é o oceano ao mergulho. sem saber nadar, submerge. se antes mãos a salvam no instante final, na superfície elas contribuem ao afogamento, tardio. no suspiro, no ar que não entra, a certeza de que podia não ter feito o melhor, mas a convicção de que se fez MElhor. cerra olhos e acorda. a verdade é sua única culpa.

¬pluralidade cognitiva, eu sinto!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010







[foto-presente]

procuro palavras encontro advérbios e verbos que se contradizem em consoantes e vogais que não se tocam no quadro negro de tinta verde o giz é transparente o pronome é singular e pessoal o substantivo feminino é de treze letras e na ausência da pontuação sua penitência é a solidão.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

há cá uma vela... pequenina... e há uma chama... pequenina... delas sustento-me... em chamas que nem queimam nem ardem... nem por isso menos chamas... d’alma.

domingo, 25 de julho de 2010

quarta-feira, 30 de junho de 2010

sábado, 26 de junho de 2010







[foto-presente]
os nós nos nós que não existem

quinta-feira, 24 de junho de 2010







*
pudesse escrever escrevia
pudesse falar falava
pudesse cantar cantava


pudesse voar voava


pudesse gritar... não gritava


pudesse segurar segure


pudesse sentir sinto
pudesse saber sabia
pudesse querer quero


pudesse amar
amava


pudesse fechar abria
pudesse sonhar acordava

pudesse chorar
sorria


pudesse lutar lutava
pudesse pintar pintava


pudesse escolher escolhia


pudesse brilhar brilhe


pudesse ouvir ouço
pudesse esperar espero


pudesse esquecer lembrava


pudesse abraçar
abrigava



pudesse beijar
tocava


pudesse morrer
preferia viver

quarta-feira, 23 de junho de 2010

segunda-feira, 14 de junho de 2010

domingo, 13 de junho de 2010







[foto-presente]

entro nesta casa como se fosse pela primeira vez. do cenário vejo paredes limpas. procuro a poltrona de dois lugares e sento-me. a olhar quadros reconheço-me em alguns deles. a música, som em silêncio de vozes, anuncia sua chegada. trazes sorrisos e flores. margaridas. abrigo consentido no corpo que conjuga reciprocidade e cumplicidade. tempo a ser feliz.
fácil criticar, acusar, apontar dedo em riste... fácil cortar voz... ou castrar... mais fácil ainda ignorar. difícil é calar-me. ainda que em silêncio, acredite, estou falando e reivindicando aquilo que julgo ter pleno domínio sobre quem sou, sobre tudo que acredito e sinto.

¬minha boneca







[imagem net]

porque a boneca ficou lá… sozinha… por um bom tempo… coitadinha… torcendo pra que o armário se acabasse em traças e cupins… alguém disse “ser lixo de si mesma…” seu vestido, de azul-turquesa… de tão sujo… mais parecia verde… e ela não gostava de verde… seus cabelos não eram mais loiros… o tempo do armário os deixou vermelhos… na face… duas bolinhas vermelhas denunciavam vergonha… uma tristeza infinita… e o coração… vazio… vazio de esperança… de felicidade… vazio de amor… coitadinha… ela sofria… alguém também disse que se boneca não fosse… “seria trapo humano… consumida sem culpa…” também houve quem apostasse na recuperação… bonecas tendem a ter lojas de bonecas… hospitais de bonecas… alguém passou… estendeu as mãos… e a boneca… coitadinha… aceitou… de mãos dadas… ela passeou por bosques… sobreviveu aos leões… às gazelas… deu volta no lobo-mau… não comeu as maçãs da cestinha da bruxa… e o príncipe até passou em seu cavalo branco… ela não o reconheceu… e ele seguiu adiante… a boneca… coitadinha… não queria um parceiro… ela precisava de um amigo… e tinha… depois… ele emprestou seus olhos a ela… e o céu… aquele… passou a ter uma estrela que brilhava sempre que ela precisava… seus olhos estavam lá… no céu dela… por muitas vezes ela fechou os olhos… fechou as mãos… e pediu: “me re-escreva” e ele… de homem… se fez Poeta… e não sei bem como… re-escreveu uma história pra aquela boneca… até que um dia a boneca pediu asas… e ele disse: “vai ter de aprender a cair algumas vezes…” e sempre que acontecia… ele estava lá a ampará-la da queda… a impedi-la de cair no abismo… até que a boneca… coitadinha… desisitiu de voar… voar era um dom… que ela… boneca… não tinha… um dia… não se sabe como… ela achou que ele tinha soltado suas mãos… e arriscou em escrever… depois de muito tempo… sua própria história… teve medo… precisava da aprovação dele mesmo que fosse pra reprová-la… fez-se silêncio… ela ousou e apostou em estar usando a tinta adequada ao papel de carta… ela acertou na escolha… e de boneca coitadinha… feia e maltrapilha… no seu vestidinho azul-turquesa… hoje… novinho… agora ela voa pelo céu… livre… livre… nas asas de quem a acolheu… leva no olhar um brilho… que ela aprendeu a conhecer… esperança! no peito… ainda velhas canções… nenhuma dor… coragem! na intimidade… de boneca… uma nova mulher… uma linda mulher… que entende de desejos… e sobretudo… sobretudo de magia e de oceanos… de felicidade… de amor… de amor de amigo que se faz num simples estender de mãos… e braços… nos abraços… de quem recebe… e acolhe no peito… um grande amor… mas não dessa vida… que ela como boneca… sabe.

quinta-feira, 10 de junho de 2010








há dias que viver não justifica. há outros que viver implica em resistir. e há dias que viver deixa de ser um estado líquido para se tornar sólido. sólido em convicções que justificam resistir. há dias...

terça-feira, 1 de junho de 2010

¬doce convicção








podemos parar... e podemos prosseguir... podemos parar... parar de sentir... podemos des'sentir. e podemos prosseguir... parar a sorrir... e parar... de prosseguir. parar a sentir des'sentir... e podemos parar a desistir em prosseguir... a opção é uma doce convicção...

domingo, 30 de maio de 2010








há certezas que prendem asas. há dúvidas que possibilitam o voo. e há convicções que cegam palavras. há dias que viver não justificativa. há dias que viver explica. não pergunte que dia é hoje. alguém disse ser domingo. acredito. o chão que sustenta é o mesmo que desequilibra o sentido e faz da linguagem imprópria, um porto, não seguro, de pontos-perguntas... no cerrar de olhos, ouvidos e boca. o olfato esconde medos que já não cabe mais fugir. a ausência do discurso inédito traz a cor da oração sofrida em tempo perdido. em face única a coragem é mais forte que qualquer medo. o tato delata, obediente, respondo meu nome ao grito silencioso e me confesso, contradita. porque é domingo. porque alguém disse e acredito.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

asas de mim

v
o
a

leve essa saudade pra bem longe de mim lá no alto, bem alto, ao cegar dos olhos solte-a talvez sobre o oceano talvez sobre a terra infértil e me traga um sorriso um beijo ou um abraço e me faça feliz de modo a querer morrer pra renascer em asas de mim...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

¬Antoine de Saint-Exupéry










"As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu porém, terás estrelas como ninguém... Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto... e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!"

segunda-feira, 24 de maio de 2010

não. não estou pregando o discurso hipócrita de dizer que nunca menti. eu me esforço pra não mentir, mas já menti. menti pra me favorecer e menti pra favorecer alguém... menti porque não tive alternativas... menti por conveniência e por egoísmo... já menti porque não me deram a oportunidade de ser sincera. e também menti em omissões que se fizeram necessárias. justificar, não justifico. nenhuma mentira justifica. dizer que me sinto culpada, não digo. que me arrependo, também não. não me orgulho do que fiz, mas que queria o tempo a voltar e refazer o percurso, não! aconteceu. ou porque tinha de acontecer ou porque não tinha de acontecer. não admito o dedo em riste a confessar a mentira. pode não fazer de mim a melhor pessoa, mas não me torna pior do que ninguém. não contraio débitos e meu pagamento continua sendo à vista, só não dou a cara ao tapa. [não mais]







o anonimato possibilita a sinceridade da ousadia. do medo. da vergonha. do desejo. da covardia. de toda tristeza e de toda felicidade. em privacidade consentida despimos qualquer artifício que mascare a mentira. segredamos intimidades sem abrir o cofre. anônimos das mais absolutas verdades.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

¬somos semelhantes em nossas diferenças. somos?

"A outridade é antes de mais nada a percepção de que somos outros sem deixarmos de ser o que somos, e que, sem deixarmos de estar onde estamos, nosso verdadeiro ser está em outra parte. Somos outra parte. Em outra parte quer dizer: aqui, agora mesmo enquanto faço isto ou aquilo. E também: estou só e estou contigo, num não sei onde que é sempre aqui. Contigo e aqui: quem és tu, quem sou eu, onde estamos quando estamos aqui?"

Octavio Paz

sexta-feira, 14 de maio de 2010







[imagem net]

desuso palavras. desuso vozes. desuso sentidos. desuso desejos. viver sempre foi um estado líquido, indolor e incolor. viver não dói. morrer não dói. abro aspas, fecho aspas. abro parênteses quadrados e depois os fecho, ao meu redor. desuso vida. meu inferno é particular. minha prisão é perpétua!

terça-feira, 4 de maio de 2010









*

éramos tão crianças... fazíamos papagaios de folhas de papel e depois os soltávamos pela casa e você a correr atrás deles gritando... montávamos castelos, carrinhos e aviões com peças plásticas e depois lamentávamos quando tínhamos de desfazê-los... na pracinha, próxima de casa, você juntava folhas secas como quem colecionasse um tesouro... aos 2 anos tinha fixação por carros, conhecia todas as marcas e modelos... aos 3 anos lia e escrevia diversas palavras e já dominava outro idioma... aos 4 já era completamente independente... você crescia numa velocidade absurda e por mais que eu tentasse acompanhar seu ritmo, não conseguia te alcançar... na primeira vez que foi à escola, não soltou do meu pescoço, chorava feito um menino manhoso e não tive coragem de deixá-lo sozinho... foi assim no dia seguinte, e no outro, e no outro... até as outras crianças passarem a me chamar de tia... um dia você me disse que não precisava mais ficar com você... seus olhos negros em contraste com os cabelos enroladinhos e louros me inspiravam confiança e sabia que estava sendo sincero... um dia alguém te apresentou uma coleção de pedras semi-preciosas e você nunca mais parou de colecioná-las... cuidava delas como se fossem jóias, sem mesmo saber o valor de uma jóia... foi você quem me ensinou a compreender meus sentidos e a respeitar minha limitação... a aceitar que todo o amor do mundo pode não ser o suficiente, que dores existem e tristezas também, mas amor demais não mata, o que mata é a falta dele, do amor... algumas tempestades nos chegaram em pleno verão e desabrigados, resistimos... sempre resistíamos... até que um certo dia acordamos e não vi você... ou eu acordei e não te achei mais... alguém tentou me convencer de que toda verdade havia se transformado numa grande mentira... e eu não quis acreditar... na rua procurava seus olhos, aqueles olhos negros e embora o cabelo já não fosse mais louro, eram neles que fixava toda minha atenção... as pessoas não sorriam, acho que nem me percebiam, mas eu continuava lá, a te buscar em todos os lugares... e o mundo, depois de mim e de você, já não era mais o mesmo... descobri que existem pessoas que veem mentiras em verdades e se contentam com elas... e há quem sinta vergonha em virtudes... neste caso já não há o que fazer... mundo pós-mundo, vida pós-vida... às vezes penso que minhas convicções vão se desfazer num instante qualquer e vão se transformar em montes de folhas de papel... soltas... ou em peças plásticas guardadas, próximas umas das outras, mas dolorosamente separadas. ainda guardo as letras avulsas contornadas com lápis de cera colorido onde escrevo teu nome com uma única letra e formo frases desconexas... curiosamente, as mesmas palavras que me flagelam me possibilitam o reencontro imaginário com você... não contenho palavras, não retenho frases... e toda dor passa... as palavras brotam sempre no fim do dia, de todos os dias... crescem e depois que as transfiro a você, elas morrem comigo... é assim desde que você nasceu. como amante do abecedário, as convicções renascem ainda que eu não consiga expressar com clareza que elas significam, elas existem, é que de fato importa... escrevendo encontro você no chão da sala a rir... a se divertir um tanto em soltar aqueles papagaios... e imaginariamente voamos juntos.