E era só um encontro, numa tarde... talvez, um beijo... na face, desentendido, leve tocar de mãos... muitas lembranças daquele homem, daquele sentido... leves lembranças... uma calça, uma blusa, um casaco, um sapato... no cabelo, uma flor, margarida... as 17 horas de uma tarde de sexta-feira... pontual.
Sabia que atrasos eram imperdoáveis.
As 17, mas antes das 17... sempre antes... mesa lateral do canto direito, lembrou-se, a mesma de sempre. Sentou-se. Ajeitou os cabelos. Pediu ao garçom que aguardasse um pouco. O relógio denunciava o atraso. Alguma música tocava... em viagens passadas... os sonhos... as loucuras... era só um encontro, de despedida. Mais um, entre alguns... apostava. Leve arrepio na alma... um sopro suave, a margarida de seus cabelos cai... entre os dedos, agora, brincava com ela... envolvida às lembranças, não se dá conta do tempo... olha o relógio... 17 horas e quarenta e quatro minutos... Pede uma bebida, procura o telefone, nenhuma chamada perdida... sabia que ligar, não poderia. Bebida à mesa, servida, em coquetel de frutas... prova os lábios... lábios que ele por tantas vezes bebeu... leve sorriso, escondido... sorrir era mesmo um desafio... se acostumara a ser triste... embora ele cobrasse... coisas sentidas... passado presente... lembranças perdidas... tempo onde ser feliz era regra... exceção ao domínio, ao poder... simplesmente mulher... era assim, admitia. Aprendera a ser educada, a falar baixo, a controlar os impulsos... aprendera também a ser feliz, perto. Na presença. Ausência era solidão. Fantasma. Sonho. Desilusão. Copo seco... e a margarida... cada vez mais... encolhida... procura seu telefone... nenhuma chamada perdida... desassossego... de alma, perdida. Se faz algumas perguntas. Nenhuma satisfaz. Outra bebida. Outro copo, cheio e seco. Fortes lembranças... o primeiro encontro... quem chegou primeiro... nunca se entendiam a respeito... uma vezes cedia... outras vezes esquecia... que cedia... assim, para o respeito e para os limites impostos e tão bem delineados. Sem cobrança... na hora marcada e sem perda de tempo... em tempo cronometrado... a felicidade anunciava a chegada de bons momentos... do romance...
Nada mais além... e a margarida... cada vez mais... encolhida... tempo corrido... tempo passado... leves e doces lembranças... a linguagem era em códigos... apelidos... era só um encontro... de despedida... outra bebida... outro copo vazio... no telefone, nenhuma chamada... perdida... 21 horas e quarenta e quatro minutos... lembra-se do número quatro... olha a margarida, encolhida, sem vida... pede a conta.
Despe-se e olha-se no espelho... na alma... leve desconforto... olha o telefone pela última vez e... nenhuma chamada perdida. Não dorme, cama rola... cama sobe... e desce... na madrugada o telefone toca... em leve arrepio da alma... em leve sopro de despedida... a vida... desfez-se.
Agora era só a margarida... e muita saudade.