a poesia não é minha matéria-prima, nem os calos, nas mãos, esses que me fazem questionar se não estou enganada sobre minha profissão. não há uma veia poética, nem mesmo um capilar. o sistema circulatório não é da inspiração, mas da necessidade fisiológica. escrever é como comer, beber, urinar, defecar e regurgitar. de preferência em quantidades proporcionais. infelizmente não é assim que acontece, e nem sempre o que entra, sai, mas tudo que sai, é porque entrou. respeito as vias de eliminação: não defeco pela boca, não urino pelo nariz e não regurgito pela uretra. talvez minha falta de habilidade com a escrita, mesmo reconhecendo que a principal excreção é do coração, seja por isso. afinal, não há qualquer beleza nos sólidos e líquidos excretados. ao contrário, eles fedem. e mesmo que haja o cuidado com os aterros, ou com a válvula de escape, no perfeito funcionamento da descarga, nada me salva de não sentir meu próprio odor. faz parte. minha exata dimensão com a arte me torna pequena. não trabalhar rimas e temas, entretanto, não significa dizer que não sinto a poesia que existe no outro. porque a sinto. experimento seu sabor e provo de seu cheiro. mais... permito-me ser levada por suas ilações e atrevo-me a excretar o que absorvi. mas reconheço que minha inabilidade é também dessa expressão. sempre errada. sempre indigna. sempre aquém de uma linguagem que deveria se limitar aos parágrafos. ou versos. sem entornos e sem retornos. sem vias de eliminação, sem bypass... sem via de salvação. mera espectadora.
Um texto sentido e re-sentido!
ResponderExcluirUm texto onde as sístoles e diástoles pontuam o sentido escondido de cada palavra.