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porque a boneca ficou lá… sozinha… por um bom tempo… coitadinha… torcendo pra que o armário se acabasse em traças e cupins… alguém disse “ser lixo de si mesma…” seu vestido, de azul-turquesa… de tão sujo… mais parecia verde… e ela não gostava de verde… seus cabelos não eram mais loiros… o tempo do armário os deixou vermelhos… na face… duas bolinhas vermelhas denunciavam vergonha… uma tristeza infinita… e o coração… vazio… vazio de esperança… de felicidade… vazio de amor… coitadinha… ela sofria… alguém também disse que se boneca não fosse… “seria trapo humano… consumida sem culpa…” também houve quem apostasse na recuperação… bonecas tendem a ter lojas de bonecas… hospitais de bonecas… alguém passou… estendeu as mãos… e a boneca… coitadinha… aceitou… de mãos dadas… ela passeou por bosques… sobreviveu aos leões… às gazelas… deu volta no lobo-mau… não comeu as maçãs da cestinha da bruxa… e o príncipe até passou em seu cavalo branco… ela não o reconheceu… e ele seguiu adiante… a boneca… coitadinha… não queria um parceiro… ela precisava de um amigo… e tinha… depois… ele emprestou seus olhos a ela… e o céu… aquele… passou a ter uma estrela que brilhava sempre que ela precisava… seus olhos estavam lá… no céu dela… por muitas vezes ela fechou os olhos… fechou as mãos… e pediu: “me re-escreva” e ele… de homem… se fez Poeta… e não sei bem como… re-escreveu uma história pra aquela boneca… até que um dia a boneca pediu asas… e ele disse: “vai ter de aprender a cair algumas vezes…” e sempre que acontecia… ele estava lá a ampará-la da queda… a impedi-la de cair no abismo… até que a boneca… coitadinha… desisitiu de voar… voar era um dom… que ela… boneca… não tinha… um dia… não se sabe como… ela achou que ele tinha soltado suas mãos… e arriscou em escrever… depois de muito tempo… sua própria história… teve medo… precisava da aprovação dele mesmo que fosse pra reprová-la… fez-se silêncio… ela ousou e apostou em estar usando a tinta adequada ao papel de carta… ela acertou na escolha… e de boneca coitadinha… feia e maltrapilha… no seu vestidinho azul-turquesa… hoje… novinho… agora ela voa pelo céu… livre… livre… nas asas de quem a acolheu… leva no olhar um brilho… que ela aprendeu a conhecer… esperança! no peito… ainda velhas canções… nenhuma dor… coragem! na intimidade… de boneca… uma nova mulher… uma linda mulher… que entende de desejos… e sobretudo… sobretudo de magia e de oceanos… de felicidade… de amor… de amor de amigo que se faz num simples estender de mãos… e braços… nos abraços… de quem recebe… e acolhe no peito… um grande amor… mas não dessa vida… que ela como boneca… sabe.

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