éramos tão crianças... fazíamos papagaios de folhas de papel e depois os soltávamos pela casa e você a correr atrás deles gritando... montávamos castelos, carrinhos e aviões com peças plásticas e depois lamentávamos quando tínhamos de desfazê-los... na pracinha, próxima de casa, você juntava folhas secas como quem colecionasse um tesouro... aos 2 anos tinha fixação por carros, conhecia todas as marcas e modelos... aos 3 anos lia e escrevia diversas palavras e já dominava outro idioma... aos 4 já era completamente independente... você crescia numa velocidade absurda e por mais que eu tentasse acompanhar seu ritmo, não conseguia te alcançar... na primeira vez que foi à escola, não soltou do meu pescoço, chorava feito um menino manhoso e não tive coragem de deixá-lo sozinho... foi assim no dia seguinte, e no outro, e no outro... até as outras crianças passarem a me chamar de tia... um dia você me disse que não precisava mais ficar com você... seus olhos negros em contraste com os cabelos enroladinhos e louros me inspiravam confiança e sabia que estava sendo sincero... um dia alguém te apresentou uma coleção de pedras semi-preciosas e você nunca mais parou de colecioná-las... cuidava delas como se fossem jóias, sem mesmo saber o valor de uma jóia... foi você quem me ensinou a compreender meus sentidos e a respeitar minha limitação... a aceitar que todo o amor do mundo pode não ser o suficiente, que dores existem e tristezas também, mas amor demais não mata, o que mata é a falta dele, do amor... algumas tempestades nos chegaram em pleno verão e desabrigados, resistimos... sempre resistíamos... até que um certo dia acordamos e não vi você... ou eu acordei e não te achei mais... alguém tentou me convencer de que toda verdade havia se transformado numa grande mentira... e eu não quis acreditar... na rua procurava seus olhos, aqueles olhos negros e embora o cabelo já não fosse mais louro, eram neles que fixava toda minha atenção... as pessoas não sorriam, acho que nem me percebiam, mas eu continuava lá, a te buscar em todos os lugares... e o mundo, depois de mim e de você, já não era mais o mesmo... descobri que existem pessoas que veem mentiras em verdades e se contentam com elas... e há quem sinta vergonha em virtudes... neste caso já não há o que fazer... mundo pós-mundo, vida pós-vida... às vezes penso que minhas convicções vão se desfazer num instante qualquer e vão se transformar em montes de folhas de papel... soltas... ou em peças plásticas guardadas, próximas umas das outras, mas dolorosamente separadas. ainda guardo as letras avulsas contornadas com lápis de cera colorido onde escrevo teu nome com uma única letra e formo frases desconexas... curiosamente, as mesmas palavras que me flagelam me possibilitam o reencontro imaginário com você... não contenho palavras, não retenho frases... e toda dor passa... as palavras brotam sempre no fim do dia, de todos os dias... crescem e depois que as transfiro a você, elas morrem comigo... é assim desde que você nasceu. como amante do abecedário, as convicções renascem ainda que eu não consiga expressar com clareza que elas significam, elas existem, é que de fato importa... escrevendo encontro você no chão da sala a rir... a se divertir um tanto em soltar aqueles papagaios... e imaginariamente voamos juntos.

sem peso, sem medida...
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